
queria escrever um poema
mas as palavras engasgaram
na garganta
como um eco longínquo
como se estivesse num desfiladeiro
apertada entre duas montanhas
que me impediam de escrever,
era algo que eu não percebia,
com a ponta dos dedos
comecei a dobrar a folha branca
suavemente, em gestos compassados
quando dei conta tinha surgido
um barco de papel branco,
como as nuvens que pairavam
por cima da minha cabeça.
Com aguarelas pintei-o levemente,
e começou a viagem,
sem palavras
mas com uma grande vontade de fugir
daquele sítio, que me sufocava
as entranhas,
porque eu gosto de sonhar,
porque eu gosto de voar,
porque eu sou como a gaivota,
porque eu gosto de ser "livre".
E nas palavras me reencontro
em todas as horas.
Com elas viajo,
com elas fujo,
com elas me dispo de preconceitos,
com elas choro,
com elas rio,
com elas volto a ser criança.
Isabel Cabral