
É na casa de Neruda em Valparaíso, que reparo
numa coisa curiosa:
a dimensão política de Magalhães.Neruda era um menino. Nunca cresceu. A prová-lo está o seu idealismo: um homem que se mantém comunista pela vida fora é um homem que nunca deixa de ser menino. Mas é por outra razão que penso no poeta como um menino. Pelos brinquedos.
Neruda coleccionava tudo: bússulas, berloques, conchas, pedras, quadros, copos e coisas que já não existem nem têm biarras. Visito a sua casa, La Sebastiana, hoje um museu, que se encontra em Valparaíso, no alto das muitas colinas que se enfiam pelo mar adentro e que permitem identificar a cidade entre outras mil do mundo.
Neruda? Que tem Neruda a ver com este livro? Explico: não ando perdido nos meus passos pela vida de Magalhães. A porta do Chile é sempre este corredor central que une o porto de Valparaíso ao aeroporto de Santiago. E, eu, depois de percorrrer a Patagónia e a região do estreito
de Magalhães, aproveito para descansar uns dias em Valparaíso. A visita à casa-museu de Pablo Neruda seria uma tentativa de me abstrair por umas horas do meu projecto sobre a vida de Magalhães. Mas não consigo. Neruda não me deixa.
Nos Passos de Magalhães -Gonçalo Cadilhe (excerto)
De PABLO NERUDA:
"Nega-me o pão, o ar
a luz, a Primavera
mas nunca o teu sorriso
porque então morreria."