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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Por sítios nunca navegados

Calado Mateus

Para todos os meninos, e também para os meus filhos que nunca construíram "um barco de cortiça", mas, seria bom!

Nele iriam navegando até onde a imaginação os levasse, porque só num barco de cortiça, poderiam ir a sítios que só "um barco de cortiça"os poderia levar!!!
Sempre a fantasia e o sonho.....




.....Apanhava conchinhas, búzios, às vezes daquelas Saldanhas miúdas que ali passavam em cardume... _ E, depois: _ Sabes, gosto muito do teu barco!
Aconteceu que, naquele momento, uma gaivota, muito branca, desconhecida do menino, resolveu pousar ali, bem perto dos dois. O pescador apontou para ela e disse:
_ Zèzito, esta é a Altair.
_ Altair?
_ Sim, fui eu que a baptizei. É o nome de uma estrela, sabes ? É que a Altair voa muito alto, por vezes tão alto, tão junto às estrelas, que parece, ela própria, uma estrela também...
_Que lindo, Ti João!
_ Pois a Altair é muito minha amiga. Dorme na janela da minha casa e vem comer à minha mão...
_ E onde é a sua casa? _ interrompeu Zèzito, curioso.
Ti João do Mosteiro apontou para cima e disse:
_É ali, em riba da praia. Hás-de visitá-la e ver muitas coisas bonitas que lá tenho.
_ Coisas bonitas, Ti João? _ perguntou o menino, cujos olhos castanhos de algas rebolaram de curiosidade.
_ Certamente que vou gostar! _ E, em seguida, voltando-se para a gaivota, ensaiou perguntar-lhe: _ E tu, Altar, gostas da ilha?
_Se gosto! _ respondeu a gaivota. E, sabiamente, acrescentou: _ E tu também hás-de gostar, quando a conheceres melhor.
_ E se eu a pudesse ver toda!
_ e porque não Zèzito?
_ Ainda se o meu barco fosse grande e eu pudesse ir dentro dele!...
_ Mas é que podes, se quiseres!
_ Como?! _ perguntou Zèzito, intrigado.
_ É que os meninos têm um condão maravilhoso...
_ Um condão maravilhoso, Altair? Qual?
E a gaivota respondeu simplesmente:
_ Sonhar...
_ Sonhar?! Mas... sonhar não é aquilo muito bonito que a gente vê quando está a dormir?
_ Não só Zèzito. É também aquilo que a gente imagina quando está acordada, imagina que está a viver...
_ Então... será assim como quando eu pensava que vivia nesta ilha há muito tempo e que brincava aqui com os meus amigos, embora só agora a tivesse conhecido?
_ Isso mesmo! _ E, depois de uma pausa: _ E tu não gostarias de ter um barco igualzinho ao teu, mas em grande, de modo a que pudesses caber dentro dele?... Tu, há bocadinho, disseste isso...
O menino olhou para o pescador que assistia, enternecido, a toda esta conversa. Viu-o levantar as sobrancelhas, como que esperando a resposta à pergunta da gaivota. E, vai daí acrescentou, olhando de soslaio, gaiato, para o pescador: _ Mas só se nele coubesse, também, o Ti João...
_ Pois pousa o teu barquito à beira da água, que foi para navegar que tu o fizeste...
_ Aonde?
_ Ali... _ insistiu a gaivota, apontando a margem onde as ondas se espreguiçavam muito devagarinho.
O menino obedeceu, correndo, descalço, na direcção do mar e pousou o barquito à borda da água, olhando-o,
demoradamente, até ficar com a certeza de que as ondas o não levavam...
In "barco de cortiça " - MARIANO CALADO

Obrigada pai por continuar a fazer-me sonhar!!!