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sexta-feira, 5 de junho de 2009

SONHO ANTIGO


... Era um pedaço de cortiça, feio.
Mas eu vira fazer barcos tão lindos
de pedaços de cortiça como aquele!

_ E eu não tinha nenhum barco pra brincar
como os outros meninos, lá na praia...

Apertei-o nas mãos, livres de escolhos,
olhei-o bem nos meus olhos,
moldei-o bem na minha alma
onde ardiam desejos como círios,
e as lágrimas do menino
_ mais brancas que a cor dos lírios,
mais puras do que as asas de anjos_
deram vida ao sonho antigo e sempre novo!
E aquele pedaço de cortiça, feio,
num sonho se transformou
em barco lindo _ como eu nunca vira! _
com asas de anjos por velas
e, por bússola, as estrelas!

E, nessse dia,
apertei-o nas mãos,
olhei-o bem nos meus olhos,
moldei-o na minha alma,
_ e fui com o meu barco para a praia,
brincar, com os outros meninos...

Mariano Calado in "Raízes de Maresia"

Desenho Calado Mateus

OBRIGADA PAI, OBRIGADA TIO JOÃO MARIA, PELOS SONHOS QUE NOS DERAM, E
CONTINUAM A DAR A OUTROS MENINOS!!!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Sereia

Calado Mateus

O barquito entrou, muito devagar, numa outra gruta, aberta a nascente. Havia um silêncio
estranho qualquer coisa misteriosamente vaporoso, quebrado apenas pelo chapinhar dos remos e pela ondulação que, suave, acariciava os rochedos vermelhos


A gruta distendia-se por duas salas, de cujo tecto, caprichosamente recortado, pendiam algumas colunas, como se fossem dedos finos apontando um verde esmeralda.

E Ti João disse, assim como que a medo de quebrar o silêncio quase religioso

_ Sabes, Zézito, esta gruta também tem uma
história bonita que fala numa sereia encantada. Já ouviste falar em sereias?

_ Já, Ti João _ respondeu o menino._ Mas gostava muito de ouvir a sua história... _ Pois conta-se que uma sereia, chamada Flandres, a mais bonita de todas as sereias

que habitavam os mares das redondezas, ficou um dia tão maravilhada por conhecer esta gruta
que nunca mais na sua vida a pôde esquecer. E então, dizem que no dia 10 de todos os meses, à hora
em que o Sol começa a despedir-se do horizonte, ela vem aqui inundar o céu com as suas canções, canções que se prolongam, renovadas, milagrosamente, todos os dias. E que elas são tão bonitas, tão bonitas, que os pescadores que navegam por aqui perto não podem deixar de suspender a pesca para as escutar... E que as gaivotas deixam os seus voos às voltas e o gralhar barulhento e ficam muito quietas nas rochas ou a planar sobres ondas, para não fazerem barulho... E que os peixes se acomodam no mar e deitam as cabecitas de fora, para também as ouvir.


_ E o Ti João também já alguma vez a ouviu? _ perguntou o Zézito, impressionado com o que ele contara.

O pescador ficou, por momentos, em silêncio e respondeu.


_ Já. É verdade que também já a ouvi, que já a tenho ouvido muitas vezes. Mas nunca a vi.

Nem consta que alguém a tivesse visto alguma vez, a não ser um menino...

_ Um menino?!

_ Sim, um menino que veio uma vez até à ilha montado num golfinho azul cujo dorso brilhava como se fosse de prata e que contou que a sereia tinha longos cabelos negros que lhe caíam até à

cintura, enfeitados de malmequeres brancos e uns olhos castanhos, rasgados, onde brilhavam
estrelas. Ao princípio, é verdade que ninguém acreditou.Mas ele tornou a vê-la muitas vezes. E, de cada vez que tal acontecia, contava sempre que a sereia de cabelos negros que lhe caíam até à

cintura, enfeitados de malmequeres brancos, lhe falava de coisas maravilhosas e lhe cantava cânticos cheios de alegria, mais bonitos,muito mais bonitos que os próprios búzios.



Mariano Calado in "barco de cortiça"(excerto)