terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Sereia

Calado Mateus

O barquito entrou, muito devagar, numa outra gruta, aberta a nascente. Havia um silêncio
estranho qualquer coisa misteriosamente vaporoso, quebrado apenas pelo chapinhar dos remos e pela ondulação que, suave, acariciava os rochedos vermelhos


A gruta distendia-se por duas salas, de cujo tecto, caprichosamente recortado, pendiam algumas colunas, como se fossem dedos finos apontando um verde esmeralda.

E Ti João disse, assim como que a medo de quebrar o silêncio quase religioso

_ Sabes, Zézito, esta gruta também tem uma
história bonita que fala numa sereia encantada. Já ouviste falar em sereias?

_ Já, Ti João _ respondeu o menino._ Mas gostava muito de ouvir a sua história... _ Pois conta-se que uma sereia, chamada Flandres, a mais bonita de todas as sereias

que habitavam os mares das redondezas, ficou um dia tão maravilhada por conhecer esta gruta
que nunca mais na sua vida a pôde esquecer. E então, dizem que no dia 10 de todos os meses, à hora
em que o Sol começa a despedir-se do horizonte, ela vem aqui inundar o céu com as suas canções, canções que se prolongam, renovadas, milagrosamente, todos os dias. E que elas são tão bonitas, tão bonitas, que os pescadores que navegam por aqui perto não podem deixar de suspender a pesca para as escutar... E que as gaivotas deixam os seus voos às voltas e o gralhar barulhento e ficam muito quietas nas rochas ou a planar sobres ondas, para não fazerem barulho... E que os peixes se acomodam no mar e deitam as cabecitas de fora, para também as ouvir.


_ E o Ti João também já alguma vez a ouviu? _ perguntou o Zézito, impressionado com o que ele contara.

O pescador ficou, por momentos, em silêncio e respondeu.


_ Já. É verdade que também já a ouvi, que já a tenho ouvido muitas vezes. Mas nunca a vi.

Nem consta que alguém a tivesse visto alguma vez, a não ser um menino...

_ Um menino?!

_ Sim, um menino que veio uma vez até à ilha montado num golfinho azul cujo dorso brilhava como se fosse de prata e que contou que a sereia tinha longos cabelos negros que lhe caíam até à

cintura, enfeitados de malmequeres brancos e uns olhos castanhos, rasgados, onde brilhavam
estrelas. Ao princípio, é verdade que ninguém acreditou.Mas ele tornou a vê-la muitas vezes. E, de cada vez que tal acontecia, contava sempre que a sereia de cabelos negros que lhe caíam até à

cintura, enfeitados de malmequeres brancos, lhe falava de coisas maravilhosas e lhe cantava cânticos cheios de alegria, mais bonitos,muito mais bonitos que os próprios búzios.



Mariano Calado in "barco de cortiça"(excerto)

9 comentários:

Artista Maldito disse...

Olá Isabel

Sabe que o seu Pai me lembra Sophia de Mello Breyner, estas histórias de encantar fazem-nos sonhar e voltar à idade da inocência, tal como o menino, que só ele podia ver a sereia. Faz bem em publicar os textos do seu Pai, gosto muito do modo como vê o mundo.

Beijinhos da amiga,
Isabel

BC disse...

Olá Isabel, como fico contente por ver que está a recuperar tão rapidamente.

Em relação ao texto ter semelhanças com as histórias da Sophia, talvez tenha razão, sempre a ligação ao mar, às gaivotas, às histórias inocentes, à infância.
Nós tínhamos contacto com a Sophia, e lembro-me de serões naquela altura muito aborrrecidos para a criançada, mas que agora já fariam todo o sentido.

Nós costumávamos passar férias na ilha das Berlengas e aí sente-se tudo isso.
O mar maravilhoso, as grutas escuras onde só se vê o mar transparente com tudo o que podemos alcançar no fundo, as estrelas do mar, os búzios, os corais....

Parecia um mundo só existente nos livros, e nós vivemos essas experiências e imaginávamos coisas,
piratas, tesouros, fadas...

O Ti joão existia realmente era um pescador que vivia na ilha todo o ano e contava as suas histórias de marinheiro, a mulher era a Ti Maria, e nós andávamos atrás dele, não era muito simpático, carrancudo, ar de marinheiro mesmo.
Acho que amaciou com a idade, mas era fantástico.
caminho idêntico naturalmente, sem dar por isso sou muito infantil a escrever e é o que gosto de fazer.
Beijinhos e até logo.

Ah! recebi os mails, fantásticos
Obrigada
Como me enviam muitos, quando tiver alguns dignos de enviar fá-lo-ei.
Isabel

BC disse...

E comi qualquer coisa:

Eu segui um caminho.....

Marta disse...

Que ternura!!!
Eu também gosto muito de histórias sobre sereias....
Obrigada pela visita
Marta

Viviana disse...

olá Isabel,

Que encanto de poema!

Na verdade faz-nos sonhar com coisas mágicas, belas!


Gostei muito.

Um abraço
Viviana

Vieira Calado disse...

Obrigado pelas palavras deixadas no meu blog de poesia.

Bem haja

gaivota disse...

sonhar, sonhar, as crianças,
o mar, as sereias, lindo, todo o conteúdo num belo texto...
e há sempre um "quê" de verdade nestas narrativas
beijinhos

Teresa disse...

* Quem é o Mateus Calado? Estou encantada com a imagem da sereia.

* A história da sereia é tao poética, que tenho pena, que seja só um excerto.

* A sua resposta, Isabel, à outra Isabel é quase tao excitante como a própria história da sereia.

Vale sempre a pena vir aqui!

BlueVelvet disse...

Há coisas que só os ouvidos de uma criança conseguem ouvir.
Lindo conto.
Beijinhos